A BSFL

Fundada em 18 de novembro de 2001 – data que lembra a Insurreição Anarquista do Rio de Janeiro, em 1918 – a Biblioteca Social Fábio Luz (BSFL) começou a formar seu acervo a partir da reunião de livros, revistas, periódicos e documentos remanescentes dos arquivos do CELIP (Círculo de Estudos Libertários Ideal Peres), ocupando, desde então, uma das salas do Centro de Cultura Social do Rio de Janeiro (CCS – RJ), no mesmo prédio que abrigou a centenária Associação Baiana de Beneficência, da qual o escritor, jornalista, médico e professor Fábio Luz foi sócio no início do século XX.

Fábio Lopes dos Santos Luz (1864 – 1938) era baiano da cidade de Valença e chegou ao Rio de Janeiro, recém-formado em Medicina, em 1888. No começo do século passado, publicou os dois primeiros romances sociais do país: o “Ideólogo” e “Os Emancipados”. Foi um dos fundadores da Universidade Popular de Ensino Livre (1904) e, como médico, ajudou a combater as epidemias de febre amarela e varíola que assolavam os subúrbios miseráveis do então Distrito Federal. Colaborou com a imprensa operária e com os sindicatos livres, tendo ajudado a forjar um movimento sindical forte, que se organizou e enfrentou corajosamente a repressão das ditaduras da República Velha. Nos anos vinte, Fábio Luz fundou junto com José Oiticica, Carlos Dias, Florentino de Carvalho e outros companheiros, o grupo Os Emancipados, cujo objetivo era a propaganda dos ideais libertários.

Atualmente, a Biblioteca Social Fábio Luz possui em seu acervo não só os antigos arquivos do CELIP, mas também os do Grupo Anarquista José Oiticica (GAJO) e a biblioteca pessoal de Ideal Peres, doada por sua companheira logo após seu falecimento, em 1995. São mais de mil livros e algumas centenas de jornais, revistas e boletins publicados no Brasil e no exterior. Dentro da coleção de obras libertárias, as principais seções são as de Teoria Anarquista, Anarquismo no Brasil, Anarquismo na América Latina, Anarquismo em Movimento, Revolução Russa, Revolução Espanhola e aquelas dedicadas a pensadores anarquistas como o francês P. J. Proudhon e os russos M. Bakunin e P. Kropotkin. Em suas estantes podem ser encontradas obras de grandes autores da literatura brasileira e estrangeira, além de história do Brasil e mundial, filosofia, poesia, entre outras.

Ao manter suas portas abertas ao público, a Biblioteca Social Fábio Luz está cumprindo a sua tarefa mais importante: a de criar condições para que estudantes, trabalhadores, subempregados e desempregados – pessoas que, geralmente, possuem pouco acesso a livros, jornais, revistas e outras mídias – possam descobrir em si mesmos capacidade para adquirir novos conhecimentos e, sobretudo, possam criar para si mesmos uma nova ética, fundamentada em valores como solidariedade, cooperação e apoio mútuo.

No âmbito da Biblioteca Social Fábio Luz, se desenvolvem, ainda, os trabalhos do Núcleo de Pesquisa Marques da Costa (NPMC), que tem por finalidade a investigação e preservação da presença histórica do anarquismo no Rio de Janeiro. Das atividades realizadas pelo núcleo, se destacam o estudo, a pesquisa e a documentação dos materiais referentes às lutas sociais e políticas promovidas tanto por militantes quanto por organizações libertárias, desde os fins do século XIX.

Criado em 2004, o NPMC presta homenagem – com muito orgulho – ao operário português José Marques da Costa, um dos grandes responsáveis pela organização dos sindicatos revolucionários cariocas na primeira metade dos anos vinte. Carpinteiro de ofício, militante sindical e jornalista, Marques da Costa atuou na União dos Operários em Construção Civil (UOCC), participou da luta pela re-fundação da Federação Operária do Rio de Janeiro (FORJ) e, a partir de 1922, publicou a seção trabalhista do jornal “A Pátria”, baluarte dos trabalhadores na defesa do sindicalismo revolucionário. Em julho de 1924, após anos de intensa militância política no Brasil, foi preso e logo em seguida deportado para Portugal, sendo de lá enviado para o degredo na África.

Dentro das propostas do NPMC se incluem realizar cursos, palestras e debates sobre a história dos movimentos sociais no Rio de Janeiro em sindicatos, entidades associativas de caráter popular, escolas e universidades, assim como prestar apoio a pesquisadores independentes que estejam realizando seus trabalhos fora dos meios acadêmico-institucionais. O núcleo também publica periodicamente seu boletim informativo, o jornal “emecê”, cujo nome são as iniciais de Marques da Costa.

A partir de 2007, a Biblioteca Social Fábio Luz iniciou contatos com o Centre International de Recherches sur I’Anarchiesme (CIRA), com vistas a reorganizar a sua seção brasileira – o CIRA Brasil – que teve sua existência interrompida em 1969, após mais de dois anos de atividades no Rio de Janeiro. Com o estreitamento de relações entre a BSFL e o CIRA, está sendo retomado um antigo trabalho de cooperação, baseado na permuta de materiais, documentos e informações. O reinício das atividades do CIRA-Brasil imprime um novo impulso às pesquisas e análises sobre a importância do anarquismo e suas contribuições históricas para os movimentos sociais.

Fundado em 1957 e com sede em Lausanne, Suíça, o CIRA já esteve presente na organização de diversos colóquios internacionais e também já realizou várias mostras e exposições com temática libertária. Fazem parte da biblioteca: livros, brochuras, teses, monografias, fotocópias de artigos ou de manuscritos, artigos em periódicos, folhetos e opúsculos. No seu acervo podem ser encontrados títulos em 25 línguas diferentes, na sua maioria em francês, espanhol, italiano, inglês e alemão. São mais de 15 mil documentos que se referem direta ou indiretamente à história, às ideias ou aos autores anarquistas.

O CIRA mantém ainda permutas regulares com várias bibliotecas e centros de pesquisa em todo o mundo e é membro da Federação Internacional dos Centros de Estudos e de Documentação Libertários (FICE – DL), bem como da International Association of Labour History Institutions (IALHI). Uma vez por ano o CIRA publica um boletim noticiando as últimas aquisições, pequenas apresentações das obras e informações sobre pesquisas, bibliotecas e encontros anarquistas.

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