O Empreiteiro Anarquista

O sol forte, escaldante, teimoso, quase um persecutor insistente, fervia o asfalto ríspido, enquanto Domingos dominava o cansaço e a britadeira.

Estrondo, barulho, suor.

Capacetes vermelhos, olhos vermelhos, uniforme cinza. A alma, pois bem, ainda não tinha se acinzentado. Ainda sobrava esperança naquele corpo sofrido de labor e de rotina. Ainda restava um olhar vago durante a pausa para o almoço, temperado na imensidão do canteiro de obras, repleto de vergalhões, de tapumes, de pontas de caibro mal-cortadas. Licença poética para o caibro da vida mal cortada de Domingos. Esta ele não podia dobrar sozinho com simples ou vigorosas marretadas. Cimentaram seu presente com chantagens, escravidão assalariada ou miséria. Não era lá uma escolha justa.

O destino de Domingos interconectava-se com os Josés, os Raimundos, os Geraldos, os Joões, serventes, carregadores, eletricistas, pedreiros, ajudantes, “fazedores de bicos” em geral… Todos se movendo freneticamente num ritmo determinado pela máquina, pelos dedos gordurosos e famintos do contador, do especulador, do empresário, colecionadores de moedas e distribuidores de ordenados parcos no final do mês, pelo chefe da seção.

E destes partiam as ordens. Ah sim, as ordens… “Mais depressa! Mais rápido! O horário do teu almoço já acabou! Assim está mal-feito! Refaz! Faz novamente! Vou te mandar embora se fizer isso de novo! Tem muita gente querendo seu emprego!”.

Muitos deveres, poucos direitos. Pouco dinheiro.

Tempo é dinheiro!

E era, dentro desta lógica confusa que Domingos, com o último naco de carne na ponta do garfo, só pensava o quão importante era aquele tempinho sagrado do almoço, da marmita, nem sempre tão generosa quanto desejava.

Ao espreguiçar-se em meio aos tapumes, percebeu a chegada do patrão, que acenando ao vigia da obra, invadia o canteiro com seu carro importado.

– Com o dinheiro de um destes eu comprava minha casa! – refletiu Domingos.

Postura levemente arqueada, orelhas grandes, cabelos brancos e ralos do tempo. O patrão caminhava lentamente até o contâiner-escritório improvisado da gerência da obra. Aliás, Domingos pensava se conseguiria alcançar a velhice:

– Mais um ano de britadeira e não terei muito que contar aos meus netos, esta máquina arrebenta minha coluna.

A história do patrão a peãozada não conhecia muito bem, mas Domingos tinha lá seus conhecimentos…

Era de origem portuguesa, com um orgulho quase nacionalista de uma pequena cidade no norte de Portugal. Veio ao Brasil, dizendo-se fugido de um governo violento de seu país. Trazendo na bagagem seu sangue operário, acabou por constituir uma pequena fortuna feita com o esforço e o suor alheio, de trabalhadores que ideologicamente (pois sim, hipocritamente) dizia defender.

Como Domingos sabia disto? Isto nos leva até a história do velho Antônio, o funcionário mais antigo do canteiro de obras.

O velho Antônio ou “o Velho”, como muitos o chamavam, Domingos conheceu em um de seus primeiros dias de trabalho, e ao final do primeiro mês de labuta, percebera o quão respeitado ele era no meio da peãozada, pois sua sabedoria matuta desafiava o tempo curto do almoço. Foi num dia cinza e frio, que Domingos fora conhecer a história pessoal do velho Antônio e como esta se interconectava com a fortuna do patrão. Antônio era um negro pra lá de seus 60 anos, que apesar de seu estado conservado (lhe davam 50 anos) sofreu as maiores provações dentro da sua vida repleta de desafios.

Foi durante um horizonte nublado, que a vida dos dois distintos trabalhadores se cruzaram e Domingos acabou por mudar radicalmente de vida.

– O Domingos de antes é muito diferente do de agora! – sempre pensava o próprio toda vez que lembrava do fatídico dia em que teve a conversa com o velho Antônio.

Tudo começou na chegada de Domingos do Maranhão, estava pra lá de entusiasmado com a cidade grande e as novas oportunidades, tantos prazeres e mistérios da cidade maldita fizeram em duas semanas escorrer como água metade do seu ordenado. Luzes da Urbe. Ilusão.

Domingos caíra em desespero recorrendo a um agiota:

Em uma segunda-feira de manhã bem cedo, antes de sair para o trabalho, o cobrador bateu na porta de seu quarto:

– Domingos, ou dá ou desce! A chefia tá nervosa. Até sexta eu quero o dinheiro na minha mão!

Era a lei do cão. Já tinha pedido ajuda a todos os companheiros de trabalho: em vão. Quem é que não tem dívidas?

Veio uma idéia na sua cabeça. O velho Antônio tinha uma boa reputação no canteiro de obras. Era sua última esperança em conseguir se livrar do agiota. Foi durante a saída do expediente, que Domingos se aproximou de Antônio. Pediu para conversar.

– Velho, só você pode me ajudar.
– Pode falar Domingos. Qual é o galho?
– Vou ser direto. Estou devendo um agiota e o cara vai me ripar se eu não pagar o dinheiro dele.
– E quanto é, Domingos?
– 500 reais.
– Hum. Vamos conversar.

Saíram e caminharam até um boteco que cruzava a Praça Mauá, e o velho Antônio tentou tranqüilizar Domingos. Disse que iria lhe emprestar o dinheiro, mas antes gostaria de contar uma história.

– Os prazeres desse mundo são grandes, Domingos, mas são poucos os que valem realmente alguma coisa. Você está sendo algo que você não é, Domingos.
– Como assim velho?
– Liga a tv rapaz, e percebe que tu só vai ver propaganda. Mas a gente num percebe. Assim como tão vendendo liquidificador e televisão, eles também vendem algo pra gente ficar preso nessa rede e não poder mais sair. Eles vendem pra gente o que eles acham que a gente tem de ser Domingos. Daí, a gente acaba sendo o que a gente não é. A gente acaba sendo o que eles querem que a gente seja. Assim como você está fazendo, gastando seu dinheiro nesses relógios de bacana e indo pras noitadas fingir o que você não é.
– Ah, Velho… Não precisa complicar… Eu só queria 500 reais.
– Eu sei Domingos. E depois você vai gastar quanto? Isso nunca vai acabar. Você vai virar um cachorro mordendo o próprio rabo!
Já viu um cachorro morder o próprio rabo? Da pena de ver a burrice do bicho não?
– E por que você não me negou o dinheiro Antônio? Se eu sou um cachorro mordendo o próprio rabo, Velho!
– Olha Domingos, pra te responder esta pergunta eu tenho de te contar outra história.
– Fiquei inculcado! Vamos ver onde vai dar… Vá lá, conte!
– Tá bem… Eu quero que você escute com muita atenção o que eu tenho a dizer, porque eu só vou falar uma vez.
– Tô prestando, Velho! Conta esse troço!
– Sim… Você sabe que eu sou o mais antigo dessa área, né, Domingos? Então… Eu nem sou tão velho assim. Acontece é que ninguém agüenta muito tempo no canteiro. Você sabe disso também!
– É, eu sei. Respondeu com a cabeça Domingos, o trabalho arrebenta com a gente.
– Eu trabalho há 40 anos no mesmo ofício, Domingos! Quarenta anos! Eu conheço o serviço como ninguém. Foi há exatos quarenta anos atrás eu conheci o patrão.
– O patrão daí?
– Sim, Domingos, o próprio.
– Eu era jovem e cheio de energia, parecido com você. Eu também já aprontei das minhas, mas hoje muita coisa mudou.
– Antes de o patrão ser empreiteiro ele mexia com livros Domingos.
– Livros? E o que isso tem haver com obra velho? Como ele entrou nessa? – comentou Domingos.

O Velho, antes de responder, pôs o último gole de cerveja da garrafa em seu copo e deu esse gole rapidamente fazendo sinal para o dono do bar trazer mais uma.

– Pode deixar que eu pago, Domingos. Enrolado contigo, enrolado e meio… (risos).

E continuou:

– Pois é. Mas tudo começou assim… Bastante tempo atrás, eu era garotão, trabalhava com parte elétrica e obra pequena, e de vez em quando eu fazia uns serviços para umas bibliotecas e escritórios. Em uma das bibliotecas conheci o patrão, e ele era um dos bibliotecários. Ele passava a maior parte do tempo trabalhando, mas já era fato corrido que seu maior sonho era escrever um livro. Esse desejo motivou a vida dele, o perseguiu nos maiores sonhos, isto o motivou e tirou dele o sono durante noites a fio. Assim como você deve sonhar em ter sua casa própria, não é?
– Com certeza…
– Pois é Domingos, todos nós temos sonhos, e os sonhos são como casas, e não se constrói casas sem tijolo. Mas assim como não conseguimos construir sonhos com tijolos, muito menos conseguimos colher abacate plantando maçã. A gente precisa andar no caminho certo se a gente quiser alcançar as coisas certas. Caminho errado leva a lugar errado, entendeu? Olha pra você, Domingos, você tá vivendo pros finais de semana. Você precisa acordar rapaz! Voltando ao que eu tava falando, o patrão perseguiu durante anos o sonho de escrever seus livros, mas era muito complicado, porque, pelo que falavam os outros funcionários da biblioteca, ele escrevia muito mal. Sempre que batia na porta de editora, tomava um não bem grande na cara.
– Mas e o que isso tem a ver com o dinheiro, Antônio?
– Calma Domingos, eu ainda vou chegar lá… Frustrado com tantas portas fechadas, o patrão mudou a tática e foi para o ramo da construção. Ele queria colher abacate plantando maçã… É, como eu tinha falado antes. A fama que o patrão queria não tava nos livros, mas a vaidade dele não cabia em lugar nenhum… Começou pequeno, chamando dois peões para consertar calçada e obra pequena. Mas o fato é que foi aí que ele começou a se tornar patrão de verdade. Pegou o dinheiro da rescisão do tempo de biblioteca e investiu num escritório pequeno. Ele agora era o agenciador. Já tava por cima da carne seca. Em pouco tempo podia financiar os livros com que sonhava. Poderia comprar sua fama.
– E como é que você sabe de tanta coisa?
– Porque quando ele saiu da biblioteca, me chamou para trabalhar com ele. O que pagavam pelo serviço de eletricista era baixo e nem sempre tinha serviço. Foi aí que eu fui um dos primeiros funcionários dele. Os outros já morreram. Mas eu acompanhei toda a trajetória. E ele sempre conversava comigo. Falava muito do Capitalismo, Domingos. Você sabe disto?
– Nem sei, Velho… Mas explica!
– Capitalista é aquele que é dono do meio de produção, Domingos, que não trabalha e ganha em cima do suor do nosso esforço. Como na obra. Nós não somos donos das ferramentas, não é? Da britadeira, do caminhão…
– Isso! E nem do cimento, da argamassa, do tijolo…
– Tá? Concorda?
– Concordo, Velho.
– Então, esse é o capitalista, o que vive às nossas custas! Ás custas do nosso suor! A gente trabalha pra eles e eles nos exploram!
– Como o agiota que me emprestou o dinheiro?
– Isso Domingos. Só que esse aí não é dono do meio, só especula. Mas explora igual. Então… Depois que o escritório do patrão cresceu, ele começou a ganhar muito dinheiro e aí pôde escrever seus livros, pois agora bancava toda a edição.
– E de que falavam os livros dele, Velho?
– Aí é que está Domingos. É aí que entra o melhor da história. O patrão falava de um tal de Anarquismo.
– Anarquismo? Que diabos é isso, Velho? Anarquia é uma coisa fulera, bagunçada!
– Hehehe… Eu pensava a mesma coisa que você, Domingos, até que de tanta curiosidade eu fui para uma biblioteca e peguei alguns livros só pra matar essa minha vontade de saber o que é. Anarquismo não é isso. O Anarquismo é socialista, que quer dizer que deseja uma sociedade livre e justa pra todo mundo.
– Ah mas isso é ruim de dar, Velho! Esse mundo tá todo lascado!
– Pois é, Domingos, mas muita gente já acreditou no Anarquismo e um monte era operário que nem a gente. E tem que, se você trabalha 8h por dia a gente tem que agradecer à luta dessa gente, de anarquista, por que antigamente se trabalhava dez ou doze horas direto! E ninguém tinha direito a nada! Faltava levar chicotada, como meus avós. Nem férias, nem 13º, nem descanso, nem nada. Não tinham nem salário combinado direito.
– Ah! Agora eu comecei a gostar desse anarquismo. Se for pra trabalhar menos, eu trato na hora, Velho! A gente precisava de mais anarquista aqui no canteiro, hein? (risos)
– Pois é, Domingos, mas como eu tinha lhe falado antes, muito trabalhador acreditava no anarquismo por que isso dava alguma esperança de que a coisa pode mudar. Eram pessoas como você, e como eu e que acreditavam numa vida melhor. Liberdade e direito pro povo. Com todo mundo na mesma condição, sem uns com mais, explorando tudo, sugando tudo, e outros com menos, aceitando muita coisa porque tem que ter pra sobreviver.
– Mas olha só, Velho, o que eu não entendi na história é o seguinte… Como é que o patrão escreve sobre o tal anarquismo que você falou, se o anarquismo como você tá dizendo prega liberdade e direito pro povo? Se o anarquismo quer que a gente trabalhe menos, por que o patrão faz a gente ralar pra car#@%@ na obra?
– Pois é, meu amigo Domingos. É aí que entra a história do dinheiro que eu te contei. Não é no livro, nem no que tá no papel que o sujeito escreveu, que vai mostrar quem o sujeito é. É a prática, irmão. É o que o sujeito faz na vida real.
– O patrão escreve livro sobre anarquismo, Domingos, mas no fundo ele não é! Entendeu… Só na cabeça dele Domingos!
– Você já trabalha aqui há alguns anos, não é, Domingos?
– Sim, Velho, você sabe, são três anos só de britadeira! São seis no todo.
– Pois é! Tem outra. Já percebeu o nome de rua e de condomínio de bacana que o patrão constrói?
– Não! Eu nunca prestei atenção. Que que tem?
– Então, Domingos, ele dá o nome de anarquistas pra rua!
– Ah não brinca! Ele é doido varrido?
– Não Domingos. Ele é o que é, Domingos. Assim como você tentou ser algo que te venderam pela TV, o patrão acha que ele vai colher abacate plantando maçã. Mas a gente sabe… Você sabe… E tem um anarquista, era Malatesta o nome dele… Nome italiano eu acho… que também sabe, que quem ninguém colhe abacate plantando maçã. E empreiteiro anarquista, isto não existe Domingos. Só pode ser obra de ficção!

Com essa frase o Velho encerrava a conversa. Pediu licença e foi ao banheiro rapidamente. Voltando, tirou o dinheiro para pagar as duas cervejas. Pediu emprestada uma caneta e um pedaço de papel ao rapaz que anotava o bicho. Escreveu seu endereço e indicou a Domingos como chegar. Pediu que passasse em sua casa na quinta-feira, que sua mulher lhe deixaria o dinheiro. Combinaram que fosse pago em 3 vezes, com compromisso. Domingos prometeu entrar na linha.

Voltamos ao dia de desgaste, em que Domingos refletia sobre tudo isto.

– O Domingos não é mais o mesmo Domingos! – pensava novamente.
– Mas não planta maçã pra crescer abacate! – abria um sorriso pequeno ao lembrar do ditado do velho Antônio.
Domingos ainda devia uns 50 reais ao Velho e nas conversas sobre anarquismo pensava em se filiar ao sindicato da construção civil. Mas o velho também o alertou para tomar cuidado com as direções. Que era bom ele refletir bem, pois a organização de hoje em dia não é mais de luta para os trabalhadores e fica do lado do patrão.
– Ah, Velho, anarquista!
(…)
– Será que se eu pedir para um livro de anarquismo o patrão ele me empresta!– pensou com um ar de ironia.
– É capaz de me mandar embora! Melhor ficar quieto! O patrão anarquista não se mistura com o povo!

Domingos gargalhou sozinho e foi esse o impulso que ele dava para levantar do tapume e recomeçar o trabalho depois do almoço.

Rafael Vendetta; R. D., 2008

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